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É Suposto o Psicólogo Falar Sobre Si na Consulta?

Foto do escritor: Joana Santiago Baptista
Joana Santiago Baptista
14 de out.
6 min de leitura

Já te aconteceu estares no/a psicólogo/a e ele/a falar sobre si? Pode ter dado um exemplo pessoal para ilustrar qualquer coisa que vocês estavam a falar, ou talvez tenha partilhado como se sentiu quando tu lhe contaste algo ou pode simplesmente ter-te dito onde vai passar as férias.


Ou até podes já ter sentido vontade de lhe perguntar algo sobre si e ficaste na dúvida se ele/a te poderia responder. Já te aconteceu o/a teu/tua psicólogo/a revelar o que está "por trás da cortina"?



Será que é suposto o/a psicólogo/a fazer isto? Talvez já tenhas ouvido que não é suposto o/a terapeuta falar sobre si nas sessões. E isso é mais ou menos verdade, mas não é assim tão simples. Na verdade, uma das técnicas que utilizamos na psicoterapia consiste precisamente em partilharmos algo sobre nós, terapeutas. Na psicologia clínica, chamamos autorrevelação a esta técnica.


A Autorrevelação Enquanto Técnica Terapêutica

A autorrevelação, se utilizada corretamente, pode contribuir positivamente para a relação entre o/a psicológo/a e o/a paciente, porque permite ao/à primeiro/a demonstrar autenticidade, ao/à segundo/a sentir-se compreendido/a e permite aumentar a confiança entre as duas partes.


Mas, afinal, como é que a autorrevelação é utilizada corretamente? A autorrevelação deve ser utilizada apenas com um objetivo específico que contribua positivamente para o processo terapêutico. Esse objetivo deve estar bem explícito na mente do/a psicólogo/a antes de utilizar esta técnica, para evitar que o/a terapeuta fale sobre si motivado por razões próprias e não unicamente com o bem-estar do/a paciente em mente. Por exemplo, não seria correto um/a psicólogo/a partilhar com o/a paciente que teve recentemente uma discussão com o/a parceiro/a e perguntar ao/à paciente qual a opinião dele/a - obviamente que o tema nada tem que ver com o/a paciente, pelo que é bastante claro que em nada contribui para o processo terapêutico, antes pelo contrário: pode tirar tempo de consulta ao/à paciente e interferir na imagem que o/a paciente construiu do/a terapeuta enquanto pessoa eficaz interpessoalmente.


Exemplos de Uso da Técnica

O/a terapeuta revela algo de pequena importância sobre si

  • Objetivos: Manter a autenticidade da relação terapêutica

  • Exemplo:

    • Contexto: A terapeuta contou ao paciente que, dali a um mês, irá estar de férias e, por isso, naquela semana, não poderão marcar consulta. Curioso, o paciente pergunta onde a terapeuta vai passar férias.

    • Terapeuta (T): “Vou para o Algarve. Gosto muito de passar lá férias no verão. E tu, como vão ser as tuas férias?”


O/a terapeuta revela algo (verdadeiro!) importante sobre si

  • Objetivo: Ajudar o/a paciente a sentir-se à vontade para falar sobre si

  • Exemplo:

    • Contexto: Na primeira consulta, a paciente está a demonstrar uma grande dificuldade em falar sobre as dificuldades que sente e que a levaram a pedir ajuda. Falou de forma muito geral sobre sentir muita ansiedade no seu dia-a-dia.

    • T: “Sinto que está a ser difícil para ti falar sobre a ansiedade que descreveste… A verdade é que a ansiedade é uma emoção que pode ser muito intensa e até assustadora. Às vezes, há momentos em que me sinto paralisada por ela, quando se torna tão intensa que parece que não existe mais nada à minha volta. Isso já te aconteceu?”


O/a terapeuta revela que já passou por algo semelhante

  • Objetivo: Promover a esperança no/a paciente e ajudá-lo/a a sentir-se menos sozinho/a

  • Exemplo:

    • Contexto: O terapeuta está a acompanhar uma jovem adulta que iniciou há pouco tempo a vida profissional. A paciente partilha que se sente uma impostora no trabalho e que sente que todos à volta dela sabem muito mais do que ela.

    • T: “Esse sentimento é mesmo difícil, é horrível sentirmo-nos incapazes e olhar à volta e percebermos que somos os únicos. Mas é uma sensação muito comum no início da vida profissional. Eu também me senti assim quando comecei a dar consultas. Sentia que não sabia o suficiente e que os psicólogos à minha volta eram todos muito melhores do que eu. Mas depois, com o tempo, acabei por perceber que este sentimento era partilhado pelos meus colegas novos na profissão e que sabíamos muito mais do que achávamos. Claro que não sabia tudo, nem hoje sei, mas estava disposto a aprender e foquei-me nisso. Achas que é possível que não estejas a reconhecer todas as tuas capacidades neste momento mais desafiante de início da carreira?”


O/a terapeuta revela a sua perspetiva sobre uma determinada situação pela qual o/a paciente está a passar

  • Objetivo: Ajudar o/a paciente a considerar outras alternativas às suas visões e interpretações

  • Exemplo:

    • Contexto: O paciente está muito transtornado porque, todas as semanas, o seu pai o convida a ir jantar a casa dele, mas, esta semana, não convidou. O paciente está convencido que fez algo que tivesse zangado o pai.

    • T: “Compreendo a conclusão que tiras da ausência de convite esta semana. Se todas as semanas és convidado, faz sentido estranhares se numa semana não és. E percebo que concluas que tenhas feito algo de errado, porque é uma possibilidade. Mas, quando me contaste esta situação, não foi isso que me ocorreu. É curioso, porque o que me ocorreu foi que ele se tinha esquecido de te ligar ou que teve um problema no telemóvel. Parecem-me outras possibilidades igualmente plausíveis. O que achas?”


O/a terapeuta revela como se sentiu quando o/a paciente disse ou fez determinada coisa

  • Objetivo: Validar o/a paciente e fazê-lo/a sentir-se compreendido/a

  • Exemplo:

    • Contexto: A paciente acaba de contar à psicóloga algo extremamente doloroso que lhe aconteceu durante a infância.

    • T: “Sinto mesmo muito que tenhas passado por isso. Podes ver nos meus olhos que até me emocionei ao ouvir o teu sofrimento... Enquanto falavas, sofri mesmo pela versão pequenina de ti que teve de viver tudo aquilo. Nenhuma criança devia ter de passar pelo que passaste. Estou aqui contigo e, juntas, vamos cuidar dessa menina que foi tão maltratada e vamos dar-lhe o amor que ela precisa.”


Red Flags

Infelizmente, há determinados/as terapeutas que não utilizam a autorrevelação de forma terapêutica. Penso que já quase todos ouvimos horror stories de psicólogos/as que só falavam de si nas sessões, que pediam conselhos aos/às pacientes, etc.


De uma forma geral, a autorrevelação é uma “red flag” quando serve as necessidades do/a terapeuta e não os objetivos terapêuticos do/a paciente. É importante referir que, ocasionalmente, todos/as os/as terapeutas cometem erros na utilização desta técnica. Somos humanos e erramos. Contudo, torna-se problemático quando esta técnica é utilizada incorretamente de forma regular e interfere com o processo terapêutico.


Algumas “red flags”:

  • O/a terapeuta passa muito tempo da sessão a falar sobre si

    • Exemplo: Fala frequentemente da sua vida, relações, problemas ou conquistas


  • Sentes-te responsável pelas emoções do/a teu/tua psicólogo/a e por o/a confortares

    • Exemplo: Dás por ti a evitar partilhar determinadas coisas porque não o/a queres deixar triste ou magoar


  • O/a profissional comunica contigo quebrando os limites profissionais que devem caracterizar uma relação terapêutica

    • Exemplo: Convida-te para estarem juntos/as fora das sessões em contexto social


  • As autorrevelações quebram os limites profissionais

    • Exemplo: O/A terapeuta conta detalhes sobre a sua vida sexual sem um racional terapêutico


  • O/a psicólogo/a impõe as suas crenças e valores

    • Exemplo: Usa a sua experiência pessoal para dizer ao/à paciente que decisões tomar


  • Usa a autorrevelação para desvalorizar ou diminuir os teus sentimentos

    • Exemplo: “Já passei por pior” ou “Eu também era alcoólico e consegui parar de beber; também vais conseguir”


  • Faz autorrevelações sem pensar no impacto que a informação pode ter em ti

    • Exemplo: O/a terapeuta partilha uma experiência traumática sua ou muito intensa sem se certificar que o/a paciente está confortável em ouvi-la


  • O/a terapeuta usa a autorrevelação com o objetivo de obter a tua validação

    • Exemplo: “Sinto que tenho sido péssima psicóloga contigo… O que achas?”


  • Pede-te que guardes segredo de determinadas coisas, trata-te de forma “especial”

    • Exemplo: Não aplica as regras de funcionamento do acompanhamento a ti, porque és um/a “paciente especial/diferente”


Concluindo, a autorrevelação pode ser uma ferramenta importante na psicoterapia, desde que seja utilizada de forma consciente e com o bem-estar do/a paciente em mente. Mais do que nunca, importa lembrar que a relação terapêutica é uma relação humana, na qual a autenticidade e a proximidade podem coexistir com os limites profissionais.


Não é necessário que o/a psicólogo/a seja uma figura distante ou que nunca partilhe nada sobre si. É necessário que estas partilhas tenham um propósito e contribuam para o processo terapêutico. Afinal, o mais importante não é se o/a terapeuta fala sobre si, mas como, quando e porque o faz.

 
 
 

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