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Compreender o Suicídio e Como o Prevenir

Foto do escritor: Joana Santiago Baptista
Joana Santiago Baptista
30 de set.
9 min de leitura

Desde 2015, setembro é conhecido como o mês da prevenção do suicídio. Nesse sentido, e porque prevenir o suicídio também passa por falar abertamente sobre ele, publico, no último dia deste mês, este artigo, onde vais encontrar informações sobre o que é factual e falso sobre o suicídio, quem são as pessoas mais vulneráveis e como o podemos prevenir, tanto a nível individual, como coletivo.


Estima-se que ocorram mais de 720 000 suicídios por ano mundialmente, o que corresponde a 82 mortes por hora e mais de 1 por minuto. A ONU estima que, para cada morte por suicídio, correspondam 20 tentativas, o que se traduz em mais de 20 tentativas de suicídio por minuto no mundo. E cada suicídio ou tentativa tem um impacto nas pessoas à volta do indivíduo, fazendo com que milhões de pessoas sejam afetadas, direta ou indiretamente.



Mitos e Factos


O suicídio é altamente estigmatizado e na nossa sociedade e um tema tabu para a maioria das pessoas. Mas as ideias erradas que temos enquanto sociedade podem literalmente custar vidas, por impedirem a procura de ajuda por pessoas em sofrimento. Ao sabermos os factos sobre suicídio, estaremos melhor equipados para lidar com situações que envolvem suicídio e a contribuir para a diminuição do estigma da sociedade.


Mito: "Quem fala de suicídio não concretiza o ato"

Facto: Na maioria dos casos, as pessoas que morrem por suicídio falam com outras previamente sobre como se sentem e os seus planos. Quando alguém fala connosco sobre suicídio, é muito importante que levemos a pessoa muito a sério e que a ajudemos a encontrar apoio adequado.


Mito: "O suicídio é sempre um ato impulsivo"

Facto: Nem todas as tentativas de suicídio resultam de uma decisão que foi tomada de forma impulsiva. Ainda que, por vezes, a decisão seja tomada durante uma crise emocional intensa, há pessoas que planeiam a sua morte durante dias, semanas ou meses.


Mito: "Quem se suicida é egoísta e fraco"

Facto: O suicídio não deve ser razão para extrapolar características sobre as pessoas que o cometeram ou tentaram cometer. Muitas vezes, são pessoas que estão num enorme sofrimento há muito tempo e foram extremamente resilientes durante anos. Além disso, algumas pessoas não pedem ajuda às pessoas à sua volta porque não as querem incomodar ou importunar. Caracterizar essas pessoas como egoístas ou fracas seria injusto.


Mito: "As pessoas inteligentes e bem sucedidas nunca se suicidam"

Facto: O suicídio pode afetar pessoas com as mais variadas características. Uma pessoa inteligente e com sucesso, embora, aos olhos da sociedade, "não tenha razões de queixa", pode entrar num enorme sofrimento ou numa situação limite e encontrar na morte a única saída. O risco de assumirmos que determinadas pessoas não se "podem" suicidar é que dificultamos o seu acesso a cuidados de saúde mental e alimentamos a ideia de que quem tem "tudo" não pode sofrer.


Mito: "Falar sobre suicídio com uma pessoa deprimida aumenta o risco"

Facto: A investigação demonstra precisamente o contrário. Às vezes, as pessoas com ideias suicidas não querem preocupar os outros à sua volta e, por isso, não partilham como se sentem. Ao perguntarmos diretamente à pessoa (de uma forma sensível e empática) se está a ter ideias suicidas, estamos a dar-lhe espaço para nos dizer como se sente verdadeiramente. Muitas vezes, só o simples ato de partilhar com outra pessoa as ideias suicidas traz um enorme alívio.


Mito: "O suicídio não pode ser prevenido"

Facto: O suicídio pode e deve ser prevenido e existem várias intervenções com eficácia comprovada cientificamente (vê a secção final do artigo, "A Prevenção do Suicídio").


Mito: "Se uma pessoa já decidiu que se vai suicidar, não há nada a fazer"

Facto: Muitas vezes, sentir-se ativamente suicida é temporário, mesmo quando a pessoa já se sente mal há muito tempo. Ter a ajuda certa nos momentos de ideação suicida ativa é essencial. Os serviços de urgência hospitalar servem precisamente para lidar com situações limite deste género.


Mito: "As pessoas que têm ideação suicida querem morrer"

Facto: A maioria das pessoas que contempla suicídio sente uma elevada ambivalência e não quer realmente morrer. Na maior parte dos casos, há um desejo muito intenso de que a situação em que se encontra ou a forma como se sente pare. É por isto que, nos momentos de ideação suicida ativa, é tão importante falar com a pessoa sobre opções alternativas à morte.


Mito: "Só pessoas com perturbações mentais pensam em suicídio"

Facto: Ainda que muitas das pessoas que perdem a vida por suicídio tenham tido, em algum momento da vida, um qualquer problema de saúde mental, 1 em cada 4 pessoas já pensou em suicidar-se. Nem todas as pessoas que morrem por suicídio têm perturbações mentais. Às vezes, são pessoas saudáveis que se encontram em situações muito extremas.


Mito: "As pessoas que dizem que se vão suicidar só querem atenção e não devem ser levadas a sério"

Facto: As pessoas que dizem que querem suicidar-se devem sempre ser levadas a sério. Pedir ajuda num momento de tão grande desespero deve ser visto como algo corajoso e não depreciativamente. É importante termos em conta que todos os seres humanos precisam de atenção e apoio. Ajudar alguém que fala sobre o seu desejo de morrer pode literalmente salvar-lhe a vida.



Fatores de Risco e Fatores Protetores


O suicídio raramente é causado por um único fator. Na maior parte dos casos, há um conjunto de fatores que pode aumentar ou diminuir o risco de suicídio. Neste contexto, definimos dois conceitos:

  • Fatores de Risco: aumentam o risco de suicídio

  • Fatores Protetores ou de Proteção: diminuem o risco de suicídio


É importante ter em conta que não é por uma pessoa ter vários fatores de risco que isso significa que, a determinado momento, vai cometer suicídio; nem que uma pessoa que tenha vários fatores protetores nunca o irá fazer. Estes fatores foram estudados estatisticamente e não se pode definir uma relação causal do género "se tem o fator de risco A, vai cometer suicídio" ou "se tem o fator protetor B, não vai cometer suicídio".


A identificação destes fatores é útil como "sinal de alerta". Quando vemos que uma pessoa próxima de nós tem bastantes fatores de risco e poucos fatores protetores, isso pode ser uma pista importante para nos mantermos mais antentos/as a essa pessoa, dado que, estatisticamente, está em maior risco de suicídio.


Quero também ressalvar que a maioria da população tem, pelo menos, um fator de risco de suicídio e isso não é automaticamente perigoso. Mais importante do que a quantidade de fatores de risco que temos, é o equilíbrio entre fatores de risco e protetores. Por exemplo, uma pessoa cuja vida é bastante adversa mas que tem uma rede de suporte boa e apoio da comunidade pode estar em risco menor de cometer suicídio do que alguém que tem uma vida mais tranquila mas que não tem muitos fatores protetores.


Vamos considerar os fatores de risco e protetores a vários níveis:

  • Individual;

  • Relacional;

  • da Comunidade;

  • da Sociedade.


Fatores de Risco

Ao nível individual:

  • Já ter feito uma tentativa de suicídio anteriormente;

  • Histórico de depressão ou outra perturbação mental;

  • Doenças graves, como dor crónica;

  • Problemas criminais/legais;

  • Problemas ou perda de trabalho ou dinheiro;

  • Tendências impulsivas ou agressivas;

  • Consumo de substâncias;

  • História de experiências adversas na infância;

  • Sentir-se sem esperança;

  • Ser-se vítima ou causador de violência.


Ao nível relacional:

  • Bullying;

  • História familiar (ou de outro ente querido) de suicídio;

  • Perda de relações;

  • Relações muito conflituosas ou violentas;

  • Isolamento social.


Ao nível da comunidade:

  • Falta de acesso a cuidados de saúde;

  • "Cluster de suicídios" na comunidade*;

  • Stress causado por perda de práticas tradicionais ou mudança de crenças;

  • Violência na comunidade;

  • Discriminação.


*Um "cluster de suicídios" acontece quando ocorrem muitos suicídios ou tentativas num determinado período de tempo e/ou local numa comunidade. Por exemplo, no mês seguinte à estreia da série 13 Reasons Why, houve um aumento de quase 30% nos suicídios entre os 10 e os 17 anos nos EUA; pode considerar-se que aconteceu um "cluster de suicídios".


Ao nível da sociedade:

  • Estigma associado a pedir ajuda e aos problemas de saúde mental;

  • Acesso fácil a meios letais;

  • Representações perigosas de suicídios nos meios de comunicação social.


Fatores Protetores

Ao nível individual:

  • Mecanismos de coping eficazes e boas competências de resolução de problemas;

  • Ter-se razões para viver (e.g., família, amigos, animais de estimação);

  • Forte sentido de identidade cultural.


Ao nível relacional:

  • Apoio de parceiros românticos, amigos e família;

  • Sentir-se conectado aos outros.


Ao nível da comunidade:

  • Sentir-se conectado à escola, comunidade e outras instituições sociais;

  • Disponibilidade de cuidados de saúde física e mental consistentes e de alta qualidade.


Ao nível da sociedade:

  • Reduzir o acesso a meios letais de pessoas em risco de suicídio;

  • Objeções culturais, religiosas ou morais ao suicídio.



A Prevenção do Suicídio


O suicídio é um problema de saúde pública sério que requer a adoção de medidas públicas e individuais para a sua prevenção. A um nível macro, a prevenção implica a colaboração de múltiplos setores da sociedade, como os da saúde, da educação, do trabalho, da justiça, da política e dos meios de comunicação social.


Algumas intervenções que têm a sua eficácia comprovada são:

  • Os meios de comunicação social reportarem suicídios de forma responsável e não sensacionalista (por exemplo, evitando explicitar o meio letal utilizado);

  • Promover o desenvolvimento de competências socioemocionais nos adolescentes;

  • Identificar, avaliar e intervir precocemente com pessoas com comportamentos suicidas.


Mas a prevenção também pode ser feita a um nível mais micro, por exemplo:

  • Limitar o acesso da pessoa com ideação suicida a meios letais (e.g., armas, medicamentos);

  • Promover espaços livres de julgamento onde pensamentos e comportamentos suicidários podem ser partilhados;

  • Ter acompanhamento psicoterapêutico e/ou psiquiátrico;

  • Ter um plano de segurança;

  • Em caso de necessidade, internamento.



Plano de Segurança

Um plano de segurança é um documento que lista as ações a tomar e os recursos a ativar em caso de crise de saúde mental. Também é usado, embora com algumas alterações, em situações de violência doméstica.


É um recurso muito importante para a prevenção do suicídio, porque diminui ao máximo os obstáculos à procura de ajuda. Se houver um plano de segurança, no momento de crise, deixa de ser preciso:

  • Pensar no que fazer para se sentir melhor rapidamente;

  • Procurar contactos de pessoas ou entidades a quem ligar;

  • Criar um plano para acabar com aquele momento de grande sofrimento.


É especialmente útil para pessoas que lidam com ideação suicida, mas pode também ser usado por pessoas que têm ataques de pânico ou outros momentos de emoções muito intensas.


Os planos de segurança devem ser realistas, na medida em que a pessoa deve sentir que as ações listadas correspondem a algo que, num momento de crise, se sente capaz de fazer. Além disso, devem ser feitos à medida de cada pessoa. Devem ter em conta as estratégias de coping que melhor funcionam com a pessoa e os recursos que tem disponíveis em momentos de crise.


A estrutura do plano deve ser adaptada às necessidades de cada pessoa nos momentos de crise. Contudo, há certos elementos que devem estar sempre presentes:

  1. Sinais de Alerta

  2. Estratégias de Coping

  3. Rede de Apoio:

    1. Distrações

    2. Família/amigos

    3. Profissionais

  4. Tornar o Ambiente Seguro


1. Sinais de Alerta

★ Quais os sinais de que o plano de segurança deve ser usado?


Exemplos:

  • Chorar sem conseguir parar;

  • Sentir-me desesperado/a;

  • Começar a pensar em tudo ao mesmo tempo;

  • Ter vontade de me isolar;

  • Deixar de conseguir prestar atenção ao que se passa à minha volta.


Quando identificas a presença de alguns sinais de alerta, deves seguir o plano de segurança, avançando para o passo seguinte se o anterior não tiver sido suficiente para saíres da crise:


2. Estratégias de Coping

★ O que podes fazer sozinho/a com o objetivo de evitar cometer suicídio?


Exemplos:

  • Ouvir a minha música preferida;

  • Ir dar uma volta ou ir ao ginásio;

  • Jogar videojogos;

  • Dormir uma sesta;

  • Tomar um banho frio;

  • Fazer exercícios de relaxamento ou de respiração.


★ E quão provável achas que é fazeres isso no momento da crise?


Estratégias muito prováveis → Manter no plano

Estratégias pouco prováveis → Não incluir no plano


3. Rede de Suporte

★ a. Identifica pessoas que te ajudam a distraires-te e a quem podes recorrer, mesmo sem partilhares que estás em crise (e.g., amigos mais afastados)


★ b. Identifica as pessoas com quem podes falar sobre o que sentes (e.g., amigos mais próximos)


★ c. Identifica profissionais ou entidades que podes contactar se necessário (e.g., o/a teu/tua psicólogo/a ou psiquiatra, números listados abaixo)


Nota: Ao lado de cada nome, inclui o contacto da pessoa (mesmo que tenhas guardado no telemóvel). Isto facilita o processo de pedido de ajuda no momento de crise.


Contactos de Emergência


Linha de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico:

1411


Aconselhamento Psicológico SNS24:

808 24 24 24 (opção 4)


SOS Voz Amiga (15:30-00:30):

213 544 545, 912 802 669, 963 524 660


Conversa Amiga (15:00-22:00):

925 512 884, 925 512 887, 808 237 327, 210 027 159


Telefone da Amizade (16:00-23:00):

228 323 535


SOS Estudante (20:00-01:00):

969 554 545, 915 246 060, 239 484 020


4. Tornar o Ambiente Seguro

★ Faz uma lista do que usarias para fazeres mal a ti mesmo/a e escreve, à frente, como te podes proteger de cada objeto


Exemplos:

  • Medicação → Trancar num cofre cujo PIN desconheço

  • Objetos cortantes → Trancar numa gaveta e dar a chave a alguém de confiança

  • Trancar a porta das divisões com janelas das quais te podes atirar e dar a chave a alguém de confiança


Um Extra: Razões para Viver

★ Faz uma lista, o mais exaustiva que conseguires, de coisas que fazem com que a vida valha a pena ser vivida


Exemplos:

  • Beber café;

  • Experimentar comida nova;

  • Receber um elogio de um desconhecido;

  • Posso ajudar outras pessoas no futuro;

  • Não quero perder a próxima temporada de uma determinada série;

  • Quero saber o que acontece às pessoas que amo no futuro.


Dificuldades em pensar em razões para viver? Espreita o site reasonstostay.vercel.app.


Nos momentos de maior desespero, lê a lista que escreveste!



Referências Bibliográficas



CDC (2026). Guidelines for Reporting a Suicide Cluster. https://www.cdc.gov/suicide/php/suicide-cluster-guidance/index.html



SPRC (2008). Safety Planning Guide: A Quick Guide for Clinicians. https://sprc.org/wp-content/uploads/2023/01/SafetyPlanningGuide-Quick-Guide-for-Clinicians.pdf


 
 
 

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