Estou Chateado com o Meu Psicólogo. E Agora?
Sim, os/as pacientes podem chatear-se com os/as seus/suas psicólogos/as! Chamamos a isto “ruturas” na aliança terapêutica ou na relação terapêutica. Se imaginarmos a relação que é estabelecida entre o/a paciente e o/a terapeuta como um corpo de água tranquilo, podemos pensar nas ruturas como ondas que vêm perturbar a harmonia ou o equilíbrio da relação.

Há muitas pessoas que pensam que não é possível ficar-se magoado/a com o/a seu/sua psicólogo/a ou que, se isso acontecer, é algo extremamente raro. Mas a investigação tem-nos mostrado que é até bastante comum: um estudo feito na Suécia verificou a ocorrência de ruturas na aliança terapêutica ao longo do tratamento em 25% da amostra (Larsson, 2018). Um outro estudo encontrou um valor ainda mais impressionante: os pacientes reportaram ruturas na aliança em 20-40% das sessões que tiveram (Norcross & Lambert, 2019).
A razão pela qual isto acontece é muito simples: trata-se de uma relação entre duas pessoas. Tal como pode acontecer em todas as relações, podemos ficar magoados/as ou zangados/as com algo que o outro disse ou fez.
O que Significa Quando Acontece?
Tem de ser destrutiva? Significa o fim da relação?
Não necessariamente. Mas aqui entra o teu poder decisivo: partilhar como te sentiste ou guardar para ti. Se decidires partilhar, a rutura pode ser uma ótima oportunidade para paciente e psicólogo/a clarificarem as perspetivas dos/das dois/duas, redefinirem a sua relação e o que é esperado de cada um/a. Por exemplo, imaginemos que o/a paciente ficou magoado/a com o/a terapeuta porque este/a chegou atrasado/a à sessão e não pediu desculpa. Se o/a paciente decidir partilhar que não gostou dessa atitude do/a psicólogo/a, está a dar-lhe a oportunidade de reconhecer que errou, de pedir desculpa e de explicar o seu lado — possivelmente, nem se apercebeu das horas a que iniciou a sessão. Se, pelo contrário, o/a paciente decidir guardar para si como se sentiu, aí sim, a rutura pode tornar-se corrosiva e, o que antes era uma relação segura, pode passar a ser sentida pelo/a paciente como uma relação em que não se sente respeitado/a.
Os/as psicólogos erram: somos seres humanos. Além disso, nem sempre temos a capacidade de estar alinhados/as a 100% com os/as nossos/as pacientes — claro que tentamos, mas não é humanamente possível. Por vezes, dizemos ou fazemos coisas que podem magoar e não nos aperceber do impacto que tiveram. Vou dar-vos um exemplo que aconteceu na minha própria terapia: há umas semanas, iniciei a sessão com o meu psicólogo partilhando uma preocupação que tinha. Ele mal me deixou falar e rapidamente mudou de assunto, apesar de eu lhe ter dito que me sentia mesmo preocupada com aquilo. Fiquei magoada, senti que a minha preocupação tinha sido desvalorizada. Deparei-me com o tal momento decisivo de que falei acima: naquela sessão, decidi não dizer nada, ir para casa e ver como me sentia; mas, uns dias depois, continuava a pensar no que tinha acontecido e decidi enviar-lhe uma mensagem honesta. Na sessão seguinte, falámos sobre como me tinha sentido, ele reconheceu que não tinha valorizado a minha preocupação como devia e pediu-me desculpa. Apesar de me ter sentido magoada por ele, senti que este esclarecimento nos aproximou e fez-me sentir ainda mais à vontade para, em situações futuras que me magoem, ser honesta no momento.
Por isso, respondendo à pergunta “o que significa quando acontece?”: nada. Não significa que é um/a mau/má psicólogo/a, que não te compreende ou que não podes confiar nele/a, que nunca te vais voltar a sentir bem com ele/a. Significa simplesmente que, durante um momento, o/a terapeuta não esteve alinhado/a contigo e que isso te magoou, como faz sentido magoar.
Mais importante do que haver uma rutura na relação ou não, é o que tu decides fazer com os teus sentimentos. Está nas tuas mãos tomar a decisão de partilhar o que sentiste. Depois, fica nas mãos do/a psicólogo/a ser capaz de reconhecer o que correu mal, o seu papel e responsabilidade, pedir-te desculpa se tal fizer sentido e promover a vossa reaproximação.
Referências
Larsson, M. H., Falkenström, F., Andersson, G., & Holmqvist, R. (2018). Alliance ruptures and repairs in psychotherapy in primary care. Psychotherapy Research, 28(1), 123-136.
Norcross, J. C., & Lambert, M. J. (2019) (eds). Psychotherapy relationships that work, 3rd ed. Oxford: Oxford University Press.





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