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Os Psicólogos Andam no Psicólogo?

Foto do escritor: Joana Santiago Baptista
Joana Santiago Baptista
7 de out.
4 min de leitura
Nota: Esta imagem é uma piada. Um/a psicólogo/a não pode ser o/a terapeuta do seu ou da sua próprio/a terapeuta.
Nota: Esta imagem é uma piada. Um/a psicólogo/a não pode ser o/a terapeuta do seu ou da sua próprio/a terapeuta.

Muitos psicólogos sim. E até é recomendável que andem!


Existe uma multitude de razões que leva as pessoas à terapia. No caso dos psicólogos, acontece exatamente o mesmo. Problemas familiares ou conjugais, dificuldades no trabalho ou problemas de saúde mental são tudo razões que podem motivar um profissional de saúde mental a iniciar acompanhamento psicoterapêutico. Além disso, é recomendado aos psicólogos clínicos fazerem processos psicoterapêuticos pessoais com o objetivo de melhorarem a sua eficácia clínica.



Dificuldades em Vários Contextos e Problemas de Saúde Mental

Tal como todas as outras pessoas, ao longo das suas vidas, os psicólogos passam por dificuldades pessoais, familiares, relacionais e profissionais. Faz parte da condição humana. E, por vezes, podem sentir necessidade de ter a ajuda de um/a psicólogo/a. Sim, mesmo sendo eles mesmos psicólogos.


A Ilusão

Existe a ideia de que os/as psicólogos/as, especialmente os clínicos, por terem tirado um curso sobre a mente humana, são capazes de se “curarem” a eles/as mesmos/as. Talvez já tenhas visto aquele meme que ridiculariza um psicólogo ou estudante de psicologia que tem depressão, dizendo-lhe “mano, lê os teus apontamentos”. Apesar de ter graça, a ideia de que o tratamento de problemas de saúde mental é tão simples como estudar esse mesmo tratamento é tão parva como considerar que um bombeiro consegue apagar um incêndio florestal sem água.


A ideia de que os psicólogos têm a capacidade de se tratarem a si mesmos é, em grande parte, uma ilusão. Não é por se ter o conhecimento teórico ou alguma experiência clínica que isso significa que o/a psicólogo/a consegue aplicá-lo a si mesmo/a. É o mesmo que esperar que um cirurgião opere em si mesmo. Por um lado, não tem perspetiva: assim como um cirurgião não tem ângulo para operar sobre si mesmo (teria de estar todo dobrado, pode nem conseguir chegar a certas partes do seu próprio corpo), também um/a psicólogo/a não tem a perspetiva que é necessária para ser ajudado/a: falta-lhe uma perspetiva externa.


Mas Se Consegue Ajudar os Outros, Porque Não se Consegue Ajudar a Si Mesmo?

Precisamente porque, ao ajudar outra pessoa, o/a psicólogo/a tem uma perspetiva externa dos problemas da pessoa e do seu funcionamento psicológico. É como se, de fora, tivesse acesso a todas as peças do puzzle, mesmo as que a pessoa esconde dos outros (às vezes, sem sequer se aperceber que o faz). Em contraste, quando se trata de si mesmo/a, o/a psicólogo/a, tal como todas as pessoas, tem uma visão mais restrita de si: se calhar, há certas peças do puzzle que não aceita em si mesmo/a e, por isso, esconde dos outros; ou talvez tenha uma visão distorcida de uma certa característica sua, porque o/a faz sentir-se melhor consigo mesmo/a.


Quando não temos a perspetiva certa, há determinadas coisas que não conseguimos ver e, consequentemente, trabalhar. E isso acontece no caso dos/as psicólogos/as. Não significa que tenham conhecimento ou experiência clínica insuficiente, significa simplesmente que, tal como todos os seres humanos, não se conseguem analisar de uma perspetiva externa.



Desenvolvimento Pessoal com Objetivos Profissionais

Um outro grande motivador da procura de acompanhamento psicológico por estes profissionais é a procura de um desenvolvimento pessoal contínuo, que lhes permite serem progressivamente melhores terapeutas.


Os/as psicólogos/as, como todas as pessoas, têm opiniões pessoais e visões do mundo próprias, o que implica necessariamente que têm vieses ou tendência de olhar para determinadas situações ou pessoas de certa forma. Um/a psicólogo/a que trabalhou em terapia a sua capacidade de identificar esses seus vieses evitará com maior probabilidade a interferência das suas opiniões ou convicções pessoais no tratamento dos seus e das suas pacientes. Por exemplo, imagine-se uma psicóloga que é muito cética em relação a tudo o que não é científico e tem uma paciente que encontra na astrologia um grande conforto; essa psicóloga pode aperceber-se que não está a valorizar devidamente este recurso que a sua paciente tem para lidar com momentos de adversidade, simplesmente porque ela própria não vê validade nessa prática espiritual. A terapia pode ajudá-la, em primeiro lugar, a tomar consciência da sua tendência para não valorizar devidamente mecanismos de coping dos seus e das suas pacientes com os quais não se identifica pessoalmente e, em segundo lugar, a desenvolver a capacidade de, mesmo não compreendendo totalmente, conseguir incentivar os seus e as suas pacientes a utilizarem os mecanismos de coping que resultam melhor para eles/as.


A terapia também pode ser um espaço importante para os/as psicólogos/as refletirem sobre dificuldades profissionais que sintam, por exemplo, identificarem-se muito com um determinado tipo de paciente e terem dificuldade em manterem as suas motivações pessoais fora do espaço de consulta. Ao trabalharem essas questões, tornam-se melhores terapeutas para esses pacientes.


A própria intervenção terapêutica nas dificuldades pessoais, familiares e relacionais do/a próprio/a psicólogo/a tem consequências na qualidade do seu trabalho clínico. Enquanto psicólogos/as, quando os nossos problemas pessoais têm um impacto menor em nós, passamos a ter maior disponibilidade para abrir um espaço para o outro que não receba tanta interferência das nossas próprias preocupações e dificuldades. Claro que há sempre um certo nível de interferência, dado que é impossível sermos 100% objetivos (nem acho que isso seja desejável, mas isso é uma outra discussão), mas minimizá-la ou usá-la a favor do/a paciente é sempre o objetivo. A terapia pessoal ajuda-nos a trabalhar isso.


Como podes aferir pelo artigo que acabaste de ler, embora não seja obrigatório, é extremamente importante os/as psicólogos/as investirem em terapia pessoal, tanto para tratar problemas pessoais, como para fins de desenvolvimento pessoal. Está comprovado cientificamente que esta prática melhora a eficácia terapêutica dos profissionais.


Infelizmente, nem todos os profissionais têm os recursos necessários para fazerem terapia pessoal, dado que, infelizmente, é muito comum os/as psicólogos/as, tal como tantas classes profissionais no nosso país, não receberem o suficiente para investirem no seu desenvolvimento pessoal e profissional. Contudo, quando têm essa possibilidade, é muito comum que investir em terapia pessoal seja uma prioridade para os/as psicólogos/as, às vezes, até mais do que determinadas formações em psicologia.


Por isso, se já te perguntaste "será que o/a meu/minha psicólogo/a também tem um/a psicólogo/a?", a resposta é "provavelmente sim"!

 
 
 

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