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Para as Pessoas "Demasiado Sensíveis"

Foto do escritor: Joana Santiago Baptista
Joana Santiago Baptista
16 de set.
4 min de leitura

Lê este artigo se te revês nesta descrição: parece que qualquer coisa que as pessoas que são mais importantes para ti façam (ou não façam) têm um impacto enorme em ti. Vês os outros à tua volta e pareces ser o/a único/a a ficar magoado/a com coisas tão pequenas e que deviam ser insignificantes. Uma mensagem que não é respondida, uma troca de olhares entre os teus amigos que achas que tem um significado negativo sobre ti, a forma como o outro disse “sim” que não pareceu entusiasmada o suficiente. Há centenas de situações destas que “não faz sentido” afetarem-te tanto. Pensas “porque é que fico mal com tudo?”.


Interpretas negativamente o que os outros fazem - por exemplo, assumes que o teu amigo não te respondeu à mensagem porque está chateado contigo e não te ocorre que pode estar sem bateria ou sem rede. E concluis “sou demasiado sensível”. Possivelmente até há pessoas à tua volta que te acusam de seres “demasiado sensível”. Se calhar até te culpas por seres assim: tu devias ser diferente, és tu quem está errado/a.



O que se Passa Realmente


Vou dar-te uma novidade

Não há nada errado contigo. A culpa de seres sensível - talvez mais sensível do que a maioria das pessoas à tua volta - não é tua.


Todos os seres humanos são diferentes, isso inclui diferenças no nosso nível de “sensibilidade interpessoal”. E essas diferenças resultam de influências genéticas e das experiências que temos ao longo da vida, especialmente na infância.


Começando pelo lado da genética, todos nascemos com um determinado temperamento, que é uma espécie de “personalidade” com que os bebés nascem. Inclui os comportamentos mais típicos do bebé e a forma como reage emocionalmente ao mundo. Há pessoas que nascem com maior sensibilidade emocional inata. E culpar essas pessoas por serem “demasiado sensíveis” é como culpar alguém que nasceu com olhos azuis (uma característica determinada geneticamente) por ter tanta sensibilidade ao sol.



As pessoas que cuidam de nós quando somos bebés e crianças são obrigadas a lidar com o nosso temperamento - por exemplo, se um bebé chora muito, o adulto tem de escolher como vai lidar com isso: vai confortar quase sempre o bebé, vai ignorá-lo e deixá-lo chorar ou mandá-lo calar? Essa é a parte da equação que está relacionada com as experiências que temos na infância.


Se nascemos com um temperamento sensível e reagimos mais intensamente a determinadas situações (por exemplo, choramos mais facilmente face a situações em que sentimos frustração) e os nossos cuidadores não nos confortam ou ajudam da forma que precisamos, podemos acabar por nos sentir ainda mais desamparados e desesperados. Não recebemos a ajuda que precisamos para aprender a lidar com emoções negativas e a gerir situações difíceis.


Algumas crianças a quem isso acontece crescem e tornam-se adultos extremamente sensíveis nas relações com os outros. Não é exagero, nem culpa delas. É biológico e é experiência.



Então a culpa é dos nossos pais?

Não necessariamente. Muitos cuidadores dão o seu melhor ao educar os filhos e tentam confortá-los e ajudá-los a lidar com a infância da melhor forma que sabem. Contudo, é uma tarefa muito difícil e que envolve muitos erros acidentais.


Assim, culpar automaticamente os nossos pais ou cuidadores pela nossa sensibilidade elevada não é o mais correto. Há várias variáveis a considerar, como a intenção deles com as suas ações, se tinham conhecimento de formas mais eficazes de nos ajudar, se tinham a capacidade de fazer melhor, etc.



Como diminuir a sensibilidade interpessoal?


Agora que vimos porque existem pessoas mais sensíveis que outras e que estabelecemos que isso resulta de uma interação biologia-ambiente, é justo colocarmos-nos a questão: é possível não sofrer tanto com a sensibilidade?


A boa notícia é que sim! Existem pequenas práticas que podemos implementar que nos podem ajudar a lidar com uma sensibilidade elevada.



Análise de Evidências

Quando interpretares negativamente a ação de outra pessoa (por exemplo, passaste por um amigo na rua e ele não te cumprimentou, então tu assumiste que ele te ignorou porque está chateado contigo), pergunta-te: que provas objetivas existem de que o que tu interpretaste é verdade? Existem provas contra?


Vamos analisar o exemplo. Provas a favor:

  • Ele não te falou apesar de terem passado perto um do outro;

  • Tens um sentimento forte de que ele te ignorou de propósito.


Provas contra:

  • Não te consegues lembrar de nada que possas ter feito para que ele se chateasse contigo;

  • Da última vez que estiveram juntos, conversaram muito e sentiste que a vossa amizade ficou fortalecida.


Se tentarmos analisar a validade destas provas, percebemos claramente que as evidências a favor são mais fracas do que as contra. Não podemos considerar um sentimento, por mais forte que seja, como uma prova objetiva. Com base nesta análise de evidências, podemos concluir que existem mais evidências contra a interpretação de que o teu amigo está chateado contigo do que a favor.



Pensar em Alternativas

Uma outra estratégia é pensar em alternativas à interpretação que fizeste. Sim, é verdade que uma possibilidade é o teu amigo estar chateado. Mas também é possível que não te tenha visto ou que estivesse a ter um dia horrível e não quisesse/conseguisse falar contigo naquele momento.


Na maioria dos casos deste género, o mais comum é as ações dos outros terem mais a ver com eles do que connosco. A mensagem que demorou muito a ser respondida ou a forma bruta com que te falaram têm quase sempre a ver com o outro (cansaço, distração, circunstâncias de vida) e quase nunca contigo.



Estilo de Vida

Existem certos hábitos que podem potenciar a nossa sensibilidade, como a quantidade e qualidade do nosso sono. Dormir mal e/ou pouco pode fazer-nos sentir mais “em ferida”.


O mesmo se aplica ao consumo de álcool, apesar de poder ter um efeito temporário anestesiante, pode aumentar a sensibilidade interpessoal e dificultar a regulação das emoções quando estamos sob o seu efeito.



Psicoterapia

É importante ressalvar que algumas pessoas sentem que esta sensibilidade elevada é como uma ferida aberta ou resultado de um passado traumático. Para essas pessoas, recorrer a um/a psicólogo/a clínico/a ou psicoterapeuta pode fazer uma grande diferença. Mesmo assim, essas pessoas podem também encontrar alguma utilidade nestas práticas que foram apresentadas anteriormente.

 
 
 

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