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O ChatGPT é um Bom Psicólogo?

Foto do escritor: Joana Santiago Baptista
Joana Santiago Baptista
há 18 horas
5 min de leitura

Antes de assumires que vou dizer que não porque sou psicóloga e quero acreditar que passar 5 anos no curso mais 1 ano de estágio profissional para me tornar psicóloga valeu a pena, dá-me uma oportunidade.


A minha resposta talvez te surpreenda, porque discordo de alguns colegas: em determinados aspetos, sim, acho que o ChatGPT é um bom psicólogo. Já ouvi e li colegas psicólogos a darem as suas opiniões sobre o papel da inteligência artificial no campo da psicologia clínica e da psicoterapia. Alguns têm opiniões mais extremas, do género que praticamente toda a inteligência artificial é negativa para os pacientes no que toca à sua saúde mental; outros têm opiniões mais moderadas.


Já tive vários pacientes que admitiram ter tentado “fazer terapia” com o ChatGPT antes de procurarem um terapeuta humano. E eu compreendo. O Chat tem muitas vantagens:

  • Começando pela mais óbvia, é gratuito (até certo ponto);

  • Não exige que eu me exponha a outro ser humano, posso manter seguras as partes de mim de que tenho mais vergonha e que tenho medo que sejam julgadas; sei que o Chat, por não ser humano, é incapaz de me julgar;

  • Se eu fizer uma pergunta do género “devo fazer isto ou aquilo?”, o Chat dá-me uma resposta instantânea, assume a responsabilidade de tomar a decisão por mim e isso é confortável;

  • Está disponível 24h por dia e 7 dias por semana.



Os Pontos Positivos


A verdade é que o Chat é muito bom em determinadas tarefas e técnicas terapêuticas. É excelente a validar verbalmente o que sentes. As frases mais utilizadas pelo Chat que até já se tornaram meme (ex: “o que sentes faz todo o sentido”, “não estás a exagerar”) são extremamente validantes, possivelmente mais que o que um psicólogo te diria naturalmente.


Também é muito bom a dar instruções claras e estruturadas em situações de crise emocional, por exemplo, durante um ataque de pânico. Lista um conjunto de técnicas para aplicares, com instruções claras e detalhadas; pode ser muito útil nesse tipo de situações.


Os modelos de inteligência artificial (IA) são extremamente bons a racionalizar os teus problemas e a gerar possíveis soluções. Quando te sentes assoberbado/a ou confuso/a, recorrer a esta ferramenta pode aliviar-te muito. Após apenas alguns segundos, a tua vida está esquematizada à tua frente, assinalando problemas e o que tens de fazer para os ultrapassares. Possivelmente, até te gera uma tabela ou um roteiro passo a passo de como podes "resolver a tua vida".



Os Pontos Negativos


Apesar dos pontos fortes, existem bastantes pontos fracos que pessoas que recorram à IA para terapia normalmente não consideram. Vamos considerar 5 exemplos.


Primeiro, apesar de ser muito bom a oferecer conforto verbalmente, o Chat não é capaz de te proporcionar algo que apenas um outro ser humano consegue: a empatia humana. A verdadeira validação dos sentimentos de outra pessoa não é só verbal, com frases como “percebo o que estás a passar”; envolve também uma componente não-verbal, através da linguagem corporal, da expressão facial, etc. Não precisa de ser um psicólogo a oferecer-te isto, mas tem de ser necessariamente um outro ser humano.


Em segundo lugar, embora a IA seja muito eficaz a dar-te instruções do que fazer em situações de crise emocional, é importante relembrar que estes momentos não devem ser apenas geridos no momento, ainda que isso seja necessário, claro. Deve compreender-se a razão da sua existência e abordar o cerne da questão. O mais típico é ser necessário explorarem-se e envolverem fatores emocionais, cognitivos e comportamentais na intervenção de questões como ataques de pânico ou crises de angústia profunda. Ou seja, o que o Chat pode oferecer fica muito pela superfície e pode ajudar a gerir as crises no momento em que surgem, mas pouco faz para diminuir a probabilidade que se repitam no futuro.


Todos os seres humanos têm determinados padrões de comportamento e formas habituais de pensar e sentir. Os modelos de IA com os quais "conversamos" podem até ter a capacidade de identificar os nossos padrões, mas, pelo menos que seja do meu conhecimento, a não ser que o utilizador peça, eles não tentam analisar se esta forma típica de funcionamento da pessoa está a contribuir positiva ou negativamente para o alcance dos seus objetivos. Por exemplo, imaginemos um estudante universitário que tem ataques de pânico durante as avaliações e pede ajuda ao ChatGPT. A IA pode ensinar-lhe as estratégias mais eficazes para lidar com os ataques de pânico quando os tem, o que é útil, mas pode nem mencionar que o facto de este estudante ser extremamente perfecionista (algo que o Chat pode até já ter percebido com base em conversas anteriores com este estudante) pode estar a afetá-lo em grande medida. E o não mencionar isto pode dever-se simplesmente ao facto de o estudante não lhe ter perguntado algo do género "há alguma característica minha que achas que está a contribuir para os meus ataques de pânico?". Um/a psicólogo/a muito provavelmente faria essa ligação e, no momento que considerasse oportuno, traria o tema para consulta. Imaginemos, ainda assim, que o Chat mencionava na sua resposta que notava que o jovem era muito perfecionista e que isso poderia estar a contribuir para os ataques de pânico. Seria um modelo de IA capaz de guiar o jovem no demorado processo de se tornar menos perfecionista? Não vou dizer um "não" absoluto, mas tenho alguma dificuldade em acreditar que seria significativamente eficaz.


O quarto ponto engloba uma das maiores desvantagens, na minha opinião, de utilizar a IA como terapeuta. Analisar repetidamente a tua vida, os teus problemas, possíveis soluções, etc. tem um risco grande associado de te incentivar a "desligar" a parte da tua mente que sente e a apenas "ligar" a parte que pensa. Claro que pensar sobre a tua vida é importante, mas isso não deve ser feito em detrimento de sentir e a verdade é que, muitas vezes, a IA incentiva-nos a pensar, pensar, pensar e esquecemo-nos que sentir é uma parte igualmente importante de sermos humanos.


Terminando com o que considero ser o ponto mais negativo de todos, fazer "terapia" com IA não te permite estabelecer uma relação com o/a teu/tua terapeuta. Sabias que a investigação tem demonstrado repetidamente que o fator que mais contribui para a melhoria do/a paciente é a relação que este/a estabelece com o/a seu/sua terapeuta? Não são as técnicas utilizadas, nem a abordagem teórica, os conhecimentos ou o nível de experiência do/a psicólogo/a. É a relação terapêutica, uma ligação entre dois seres humanos. Como é que essa relação pode ser substituída por IA?



Concluindo: Sim ou Não?


Sim, é uma ferramenta útil para determinados objetivos: apoio emocional rápido, disponível 24/7 e acessível; ajuda rápida (mas superficial) em casos de ataques de pânico ou crises de angústia; estruturar os teus pensamentos e problemas e gerar possíveis soluções.


Contudo, não é capaz do mesmo efeito que a verdadeira empatia humana, não tem a capacidade de abordar as questões que te preocupam com a profundidade com que elas provavelmente necessitam de ser abordadas, não te dá feedback (a não ser validação) a não ser que peças diretamente, incentiva-nos a racionalizar muito os temas que lhe levamos e desincentiva o ato de sentir e, acima de tudo, a sua eficácia terapêutica estará sempre muito limitada pelo simples facto de não se poder estabelecer uma relação terapêutica.


O meu conselho é: não apostes todo o teu dinheiro neste cavalo. Se sentes que há algo que gostavas de compreender melhor, aceitar ou mudar, recorre a um ser humano. E se recorreres à IA, tem atenção aos riscos que listei acima!

 
 
 

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