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Existe Cura para as Perturbações Mentais?

Foto do escritor: Joana Santiago Baptista
Joana Santiago Baptista
9 de set.
3 min de leitura

Uma das questões que mais aflige as pessoas que são diagnosticadas com alguma perturbação mental é se a cura é possível. Voltarão a ser como eram antes?


A resposta não é simples: depende da definição de “cura” que considerarmos. Raro será o profissional de saúde mental que acredite que alguém que passe a sofrer de um problema psicológico/psiquiátrico, como por exemplo ansiedade, depressão ou problemas do comportamento alimentar, volte a ser “o mesmo”, mesmo depois de um tratamento adequado e eficaz.


A verdade é que as experiências que temos na nossa vida influenciam muito a visão de temos do mundo, dos outros e de nós mesmos. Quando passamos por experiências de grande sofrimento, como são a grande maioria das perturbações mentais, ganhamos perspectivas diferentes, aprendemos formas novas de interpretar o mundo e a nossa vida, desenvolvemos competências que antes não tínhamos e que nos permitem suportar uma dor que antes não existia, etc.


Por outras palavras, apesar de serem períodos que trazem um enorme sofrimento, a verdade é que nos permitem desenvolvermo-nos enquanto pessoas. Por vezes, agarramo-nos a formas de lidar com o sofrimento que não são benéficas a longo prazo, como beber em excesso; mas quase sempre encontramos também formas saudáveis de lidar com a angústia, como falar com alguém ou escrever sobre o que sentimos.


O conhecimento que vem da experiência que nos permite perceber o que funciona para nos sentirmos melhor e o que só torna tudo pior não desaparece quando deixamos de ter o diagnóstico que nos foi dado anteriormente. A nossa capacidade de compreender vivências humanas mais profundas, porque passámos por elas, passa a fazer parte de nós, mesmo quando já não estamos em sofrimento. Muitas pessoas tornam-se mais empáticas, resilientes e ganham inteligência emocional por passarem por problemas de saúde mental.



As Perturbações Crónicas


Há condições que são consideradas crónicas e que são caracterizadas por afetarem as pessoas toda a vida, como a esquizofrenia ou a bipolaridade.


Contudo, mesmo no caso de muitas perturbações crónicas, o tratamento individualizado que seja adequado ao quadro clínico pode permitir à pessoa ter uma vida “normal”, embora com algumas alterações (e.g., medicação, horário de sono mais regular, abstinência de álcool).



Então, a cura é possível?


Sim, no sentido em que é possível voltares a sentir-te “inteiro/a” depois de um período em que te sentiste “partido/a”. É possível (e provável com o tratamento adequado) diminuir o sofrimento e eliminar sintomas, e mais, é possível passares a compreender-te melhor e a teres uma melhor relação contigo mesmo/a.


Mas, se é possível voltares a ser igual ao que eras antes de começares a sofrer? Eu acredito que não. Não é possível, porque passaste por uma experiência transformadora de quem és enquanto pessoa.



É como a técnica artística japonesa kintsugi, que consiste em unir fragmentos de uma peça de louça partida e realçar as fissuras com uma tinta com pó de ouro. Depois de partida, a peça não volta a ser a mesma, mas volta a ser inteira, funcional e, mais importante, está transformada numa peça com novas características que lhe dão um novo valor.


Com o apoio adequado, podemos sentir-nos "curados". Geralmente, isso envolve uma boa rede de apoio composta por familiares, amigos, entre outros, e pode também envolver uma rede de apoio espiritual e comunitária. Na maior parte dos casos, é necessário apoio profissional médico e/ou psicológico.


Espero, com este artigo, ter atingido o meu objetivo: passar-te esperança. Sei que receber um diagnóstico de doença mental pode ser muito assustador e pode invadir-nos com medo de sermos "assim" para sempre, de não conseguirmos ultrapassar as dificuldades por que estamos a passar naquele momento. Mas é possível recuperar.


Não tenhas medo de pedir ajuda!

 
 
 

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