A Importância da Autocompaixão

Imagina o seguinte cenário: És convidado/a por um casal amigo para ir jantar à casa nova deles. Acabas por chegar mais cedo do que o combinado, mas decides tocar à campainha e não ficar na rua à espera. Os teus amigos abrem a porta, visivelmente atrapalhados e stressados. Ela explica-te que saiu mais tarde do que queria do trabalho porque estava numa reunião que se atrasou e ele explica que teve que ir ao supermercado à última da hora porque ontem se esqueceu de comprar um ingrediente necessário para o jantar de hoje. Tu tentas assegurá-los de que está tudo bem e sugeres fazeres-lhes companhia enquanto eles cozinham.
Estão animadamente a conversar, quando sentes um cheiro a queimado e apercebes-te que a tua amiga deixou queimar o prato principal porque estava distraída com a conversa. Imediatamente, o namorado dela começa a gritar: “Que estúpida! Como é que foste queimar a comida? És inútil! Nunca fazes nada bem!”. O que é que pensarias da forma como ele está a tratar a namorada? E como é que achas que a namorada dele se ficou a sentir com a reação dele?
Deixa-me tentar adivinhar: pensarias mesmo mal da forma como o teu amigo tratou a namorada. E, se tivesses de adivinhar, dirias que ela se teria ficado a sentir humilhada, envergonhada, desvalorizada, etc.
Pensarias que ela não merecia ter sido tratada assim. Afinal de contas, poderia acontecer a qualquer pessoa e, ainda por cima, tendo em conta as circunstâncias: ela chegou tarde a casa por uma razão fora do controlo dela, tu chegaste mais cedo do que o combinado, o que só a fez sentir-se ainda mais stressada e, porque queria ser uma boa anfitriã, ela ficou a fazer conversa. É compreensível ter-se distraído e queimado o jantar.
Mas então e se não tivesse sido o teu amigo a falar assim com a namorada à tua frente, mas sim tu a falar contigo? Quando te apercebias do cheiro a queimado, zangavas-te contigo mesmo/a: “Que estúpido/a! Como é que foste queimar a comida? És inútil! Nunca fazes nada bem!”.
Soa familiar? Aposto que já falaste de forma parecida a esta contigo mesmo/a.
Provavelmente nunca permitirias que alguém falasse assim com um/a amigo/a teu/tua, mas acabas por fazê-lo contigo mesmo/a. E porque é que há-de ser aceitável falares assim contigo, se não é aceitável que falem assim com alguém que amas?
Muitas vezes, falamos connosco mesmos de formas mesmo críticas e até cruéis. Quando erramos, o mais automático é criticarmo-nos, insultarmo-nos, mandarmo-nos abaixo. Dizemos coisas a nós mesmos que nunca diríamos a outra pessoa e que nunca permitiríamos que nos dissessem a nós. Então, porque é que o dizemos a nós mesmos? Porque é que permitimos que exista uma exceção relativamente à forma como nos permitimos sermos tratados/as?
Hoje eu venho defender que isso não é justo. Venho defender que não é justo carregarmos um bully dentro de nós que nos julga e critica tudo o que fazemos de errado. Eu acho que nós devemos ser os nossos maiores apoiadores e que merecemos a nossa própria compreensão e empatia. Não é “passar paninhos quentes”, é sermos capazes de colocar os nossos erros no contexto em que aconteceram. É sermos capazes de nos perguntarmos “o que é que eu diria a um amigo que estivesse a passar exatamente pelo mesmo?”.
E agora imagina esta alteração no cenário: em vez da crítica, eras capaz de dizer a ti mesmo/a "Que chatice, queimei a comida. Mas não é o fim do mundo. Estava ocupado/a a fazer várias coisas ao mesmo tempo, não estava à espera que a comida queimasse com tanta facilidade e acabei por me distrair. É chato, mas acontece.".
Que sentimentos te surgem agora? É mais agradável ouvir esta versão do que a insultuosa, não é? E repara: não estás a negar o teu erro e não estás a apresentar desculpas. Estás a ser objetivo/a, com a diferença que, agora, estás a colocar o teu erro no contexto em que ocorreu.
Como?
Passar da autocrítica para a autocompaixão é um processo. Não é algo que acontece do dia para a noite. Requer esforço e persistência. Mas vale mesmo a pena.
Sermos compreensivos connosco é um desafio especialmente difícil quando estamos habituados há muito tempo a atacarmo-nos. A boa notícia é que é possível. Muitas vezes, é necessária a ajuda de um profissional que esteja ao teu lado a identificar as críticas, que te ajude a compreender as suas origens e o que as mantém, e que te ajude a ganhar uma forma mais compreensiva de falar contigo mesmo/a.
Se gostavas de ter ajuda para compreender melhor o que está subjacente a esta forma de falares contigo mesmo/a ou para começares a tratar-te de uma forma mais gentil, a minha sugestão é procurares um/a psicólogo/a que possa percorrer esse caminho contigo.





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